
A falta de percepção a fez pensar que era invisível. Insistia em acreditar que não possuía nada de especial para cativar alguém, sendo que o receio tornou-se mais forte do que a vontade de reverter tal idéia. O sentimento de inferioridade e a desesperança, tranquilamente, cirandavam ao redor de seu ego; o acanhamento comprometia a vontade de realizar os objetivos que tanto almejava; as energias utilizadas, até então, eram focadas em teorias que jamais colocara em prática. Tudo ficava por projeto. Tal reflexão lembrou-me de um episódio cotidiano.
Era um aglomerado de corpos em movimento, sem identidade. Cada um tinha características que os diferenciavam entre si, detalhes que muito ou nada diziam: eram altos, magros, gordos, baixos; uns falavam demais, outros eram mais observadores; havia os mais sérios, os mais sorridentes e os menos explícitos. Estes últimos camuflavam-se nos outros, fazendo da discrição um ombro amigo.
O que me fascina em tais pessoas são as possibilidades. Muitas são o oposto do que aparentam ser, podendo assumir postura totalmente contraditória do que a pré-concebida por nós. Mas o caso não é este. A pessoa que me inspirou a escrever tais palavras encaixou-se como uma luva na hipótese formulada por minha intuição.
Pode-se dizer que, pelo menos para mim, trata-se de alguém transparente; transparente, pois pude olhá-la por dentro vendo o que estava por fora. É algo que muitos conseguem, mas ressalto isso pela força da convicção que senti. Estava certo.
Enquanto observava a transparência sentada à minha frente, no meio de tantos outros, fantasiava uma aproximação. A quantidade de projetos era tão numerosa que me fazia ficar denso, com pouca mobilidade. Não podia erguer-me, por mais que tentasse; queria sentar-me ao seu lado, fazer-lhe companhia, compartilhar o que sentia; no entanto, a ação ficava por conta dos pensamentos.
Assim também agia o tempo, incessante. Meses se passaram e uma sucessão de acontecimentos nos aproximou, de forma sutil. Não era uma intimidade que ficava acima do platonismo, mas o suficiente para confirmar o que sentia. Era um passo. Um passo tímido, mas dado. Ainda tenho dúvidas. Anseio por uma certeza mais profunda acerca de mim, mais certa do fato de que o único invisível, desde o princípio, era eu.
Espelho Vazio foi escrito por Nicollas Bilato, um garoto que conheci quase no fim do ano passado. Gostaria de tê-lo conhecido antes ;)
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